27.5.07
Tronco de árvore
- Se vocês não querem acreditar…
- Mas então cadê o corpo?
- É mesmo, diga onde está o cadáver!
João Guilherme começava a se irritar com o interrogatório. Seus melhores amigos duvidavam dele. O mais velho, Rodrigo, de 17 anos, queria porque queria ver a tal “mulher da cadeira” perdida no meio do mato. Já Tiago, além de ter joelhos tortos, tinha medo, preferia duvidar a olhar in loco. Por coincidência, eu estava entre eles.
Dizem que há somente duas regras gerais na humanidade. A primeira, que nos atingia em cheio, reza que somos atraídos pelos nossos temores. Lá fomos em direção ao matagal. Segundo João Guilherme, a balzaquiana estaria morta perto daquela antiga casa abandonada, que todos conhecíamos bem: havia mato nos cômodos. As paredes guardavam rabiscos de criança e marcas de prego, revelando farta memória armazenada.
Todos vimos
Para vencer o trajeto, subimos um morro. Antes de chegarmos ao topo, já podíamos ver. De fato, tinha alguém sentado em uma cadeira de balanço. Mais um pouco e víamos perfeitamente. Era uma mulher, nem bonita nem feia. A cabeça estava inclinada. Os longos cabelos encaracolados se moviam, mas os olhos não piscavam mais. A forte maçã do rosto combinava com a boca carnuda. Um vestido azul descia até os tornozelos, deixando à mostra os chinelos de pano.
Todos vimos o pé se mexer. Rolamos morro abaixo. Corremos o máximo que pudemos. Em razão do problema de nascença, o máximo de Tiago era inferior ao dos demais, por isso, ele foi o último a entrar na residência dos alemães.
- Entrem, entrem. Quer dizer que vocês também viram?
- A mulher se mexeu!
- Sei, sei. Eu e minha família - apontando para a mulher e os dois filhos - também estamos preocupados, tanto que, para nos protegermos do cadáver, providenciamos vários copos cheios de água, com folha de tília dentro. Rápido, fechem a porta e não larguem o copo de vocês.
Enterro
Fui o último a pegar o copo, talvez por não acreditar em superstições. Ver sete pessoas olhando para mim com um troço desses na mão era louco demais.
- Gente, acho que foi o vento, eu disse.
- Vento tem a força de mover o pé enrijecido de um cadáver? Perguntou o alemão.
- A mulher morreu e é só. Voltarei ao local e a enterrarei. Alguém me ajuda?
Pôr-do-sol
Saímos em caravana. A Lua, mera contrafação do Sol, fingia iluminar o nosso caminho. Morro vencido e estávamos novamente diante da ex-balzaquiana, agora carne em putrefação. Não sei por que, mas recebemos a orientação de beber a água e colocar a folha sobre a defunta. Os cabelos encaracolados se moviam, mas os olhos não. A cabeça continuava inclinada, enquanto eu e João abríamos o buraco na terra.
Então, a segunda regra geral entrou em ação: “o que tememos acontece.” Foi Rodrigo quem ouviu primeiro. “Parem de cavar!”, gritou ele. Depois todos ouvimos. Ela apenas aguardava mais um pôr-do-sol, como o imenso tronco de árvore, deitado ao lado da casa.
criado por Julio Scarparo
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