16.5.07
Matéria escura
A primeira vez que aconteceu estava sozinho no quarto. Com os ombros apoiados no tapete vermelho, folheava o dicionário enciclopédico luso-brasileiro, elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa em parceria com a Academia Brasileira de Letras, edição de meados dos anos de 1940. Tinha seis anos.
Deixava-se levar pelos textos e ilustrações até que um barulho de metal o puxa de volta. Desgruda os olhos da obra e repara que o som de sininho vem do fecho da sandália, que está jogada no chão. O que vê é assustador: o metal está sendo chacoalhado sozinho. Pernas, para que te quero!
Gritando, abre a porta e sai em disparada pelo corredor. Ao encontrar a mãe, conta tudo: “a sandália está se mexendo sozinha! Ela está se mexendo sozinha!” A mãe vai ao quarto. A sandália repousa tranqüilamente. “Ela estava se mexendo, eu juro! Estava sim!” “Filho, era apenas o seu anjo da guarda.”
Vinte anos depois
Lembrou-se disso vinte anos depois. Escrevia comentários sobre a vida de Edgar Allan Poe para um jornal de bairro qualquer. Para reler o texto melhor, acende um cigarro. Traga e o encaixa no cinzeiro. Dessa vez não há sininho. O cigarro pula meio metro. O jornalista coça a sobrancelha, olha as janelas fechadas e pensa: “mas que diabo está acontecendo aqui?”
A gota d’água
“Mas que diabo está acontecendo aqui?”, voltou a dizer 30 anos mais tarde, quando pegou a esposa segurando a ferramenta do pedreiro. Fez as malas e alugou uma pequena casa, feia de doer. A descarga do banheiro não funcionava e os poucos móveis tinham cupins. Logo no primeiro mês, acontece o maior problema de todos. Acorda de madrugada com o barulho vindo da cozinha. “Será que há vazamento de água?” Acende a luz e fica magnetizado com a visão: um copo dança diante do filtro. Sente um arrepio que paralisa seus braços, um líquido quente molha seu pijama. Sozinho em casa, grita de pavor, como a criança de antanho. A mãe não está ali para socorrê-lo. Desmaia.
Desperta com o cachorro lambendo a sua perna. O copo não dançará mais. Está quebrado no chão. Levanta-se, pega o telefone e liga para meio mundo: teólogos, ufólogos, espíritas, evangélicos, pais-de-santo, cientistas, filósofos. Ouve atentamente as explicações de cada um, porém não chega a nenhuma conclusão.
Sangue
Em busca de pistas, ele retorna ao ponto inicial. Tira da estante o dicionário enciclopédico luso-brasileiro, elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa em parceria com a Academia Brasileira de Letras. Com os cotovelos no chão, folheia a obra. Na última página, um texto manuscrito. “Parece que foi escrito com sangue. Mas sangue é indelével?” Eis o que leu: “Poussé-Poussé. Ser maldoso que atormenta os pensadores. É invisível aos seres humanos porque 90% de seu corpo é composto de matéria escura, uma substância que não reflete luz.”
criado por Julio Scarparo
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