6.5.07
A garota do suco
Impossível faltar um parafuso naquela linda mulher. Tudo bem que diz coisas esquisitas sobre discos voadores e levitação. Mas daí à insanidade é uma distância enorme. Tem um hábito engraçado: sempre que toma suco de frutas, fala pelos cotovelos. Basta apertar o canudinho, com os dedos compridos e ossudos, para soltar a língua. Por coincidência, na hora do intervalo, eu estava ao seu lado.
- Você soube que tiraram as máquinas de datilografia do último andar?
- Não. Por quê?
- Parece que os professores só estão aceitando trabalhos digitados em computador. A era das rasuras acabou.
- Bom, pra mim é indiferente. Detesto todas as teclas e teclados do mundo.
- Mas como você fará os trabalhos da faculdade? Tem computador em casa?
- Não. Mas dou um jeito de escrever o que eles querem ler. O desafio de continuar no jogo é divertido. Se antigos profetas enganaram reis com suas adivinhações, eu tiro de letra a exigência dos professores.
Morte não existe
Levanta-se e o copo mágico, ainda em contato com os dedos, continua a fazer efeito. Pergunta se posso acompanhá-la até o pensionato. “Vamos lá”, respondo. Afinal, já tinha descoberto naquela noite um autor interessante: Kierkegaard. Saímos da faculdade e descemos a rua sinistra. A infinita calçada desequilibra os passantes, que se apóiam nas árvores enterradas. À queima-roupa, ela compartilha um pensamento:
- No fundo, acho que a morte não existe, dispara sem piscar – é outra idiossincrasia da morena. Tudo o que diz, depois de um gole de suco, diz sem piscar. Ela tem um quê de Medusa, mas os olhos não petrificam o interlocutor, servem para degustá-lo num ritmo de jibóia.
- Sério? Não existe? Trata-se de uma descoberta e tanto, parabéns.
- É verdade! A morte não existe, pelo menos no sentido de ser o fim da linha. Quando o corpo perde o movimento, a vida pede passagem. Chegamos, quer entrar?
Contradição
Anos depois eu a encontrei na Praça da Sé. Soube que havia se casado com um médico, o mesmo que lhe causava ojeriza no último ano do curso. “O homem é gordo e nojento, não desgruda de mim, principalmente agora que terminei meu namoro de seis anos”, comentou certa noite, enquanto dirigia seu Fiat 147. A convidei para tomar um suco, porém estava com pressa. “Estou atrasada para a aula de ioga”, desculpou-se, piscando bastante.
criado por Julio Scarparo
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