ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

1.5.07

Assalto no asfalto

Vinte minutos depois de ter sido espancado, consegue se recompor. Arrasta-se até a sarjeta para evitar o carro, que lança sinais de luz. Ao levantar-se, nota que uma das pernas é desobediente. Olha para o meio da rua e nota também que seus materiais estão espalhados: agenda, caderno, livro, caneta e lápis. Os quatros assaltantes saíram com a carteira. O vendedor de bananas, único comerciante aberto de madrugada, acompanhou toda a cena. No entanto, em nenhum momento procurou ajudar a vítima, mesmo depois de os bandidos pularem o muro e correrem pelos trilhos do trem.

Sem dinheiro, o jeito foi voltar a pé. Mancando, seriam duas horas de caminhada. Quarenta passos adiante, ele pára em frente à farmácia de plantão. “Rapaz, o que houve? Quer ajuda?” A bela atendente, que não manjava nada de enfermagem - na verdade cuidava do caixa – o levou para dentro. Abriu a porta atrás do balcão e, com a cabeça, pediu que subisse as escadas.

Corredor estreito

O salão é sujo e mal iluminado. Praticamente não há parede em um dos lados, só janela. Daquele lugar, vê ratazanas entrando no açougue, do outro lado da rua. A moça lava os ferimentos com água e sabão e faz curativos com band-aid. O ronco de um automóvel é a senha para a caixa desaparecer. Sozinho, naquela escuridão, fica mais calmo. Vai até o minúsculo banheiro e se enxuga.

Como ela não retorna, acha melhor descer. Abre a porta devagarzinho e segue em direção à escada, que não encontra. Está tudo escuro. Dá meia-volta e não encontra a porta do salão. Olha para os lados e não se localiza. Sua última opção, antes de entrar em total desespero, é abrir os braços. Cada uma de suas mãos toca numa parede. Mão ante mão vai andando. Naquela altura do campeonato, o corpo dolorido já não era mais o problema principal. Irritado, pula até cair no sono.

Quando acorda, percebe que é carregado por alguém. Mas ele está enganado. Simplesmente se desloca de um jeito estranho, parece flutuar. Agora não são os pés nem as mãos que o guiam. É não sei o quê. Seus olhos não servem pra nada. Os gritos de socorro, da mesma forma, são inócuos. “Então é verdade? Aquele túnel existe? Estou num túnel? Mas cadê a luz?” As elucubrações o impedem de sentir que está parado no ar, feito beija-flor ou helicóptero. Conclui que os pensamentos são perda de tempo. A solução certamente não passaria por ali.

A cilada

- Tudo por causa daqueles vagabundos. Mas não tive como me livrar. Ao descer do trem, por volta da meia-noite, dois magrelos me atacaram. O restante do grupo ficou a distancia, um de cada lado. O mais próximo segurava uma faca improvisada de aproximadamente 30 centímetros, sem contar o cabo de madeira. Preocupado com a arma branca, não vi o golpe do outro, que me derrubou. Em instantes, todos começaram a chutar. Minha carne esfolava no asfalto a cada soco e pontapé. “Dá a carteira! Dá a carteira! Dá a carteira!”, berravam.

- Eu apenas queria a carteira.

- Eu quem?

criado por Julio Scarparo    12:18 — Arquivado em: Sem categoria

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