ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

29.4.07

Esperança

Em um belo dia, levanta da cama e começa a enxergar mal. Não que precisasse trocar de óculos. Acabara de passar por um experiente oftalmologista. Apesar disso, começou a enxergar tudo numa única dimensão. Explicando melhor: olhava o presente como se fosse passado. Para o futuro era completamente míope. Não que acreditasse que o destino estivesse escrito nas estrelas, ou algo assim. Não era isso. “Deus não se interessaria pelo plano de vôo das moscas”, costumava inferir.

Mas de tanto tentar, como quem espia por entre as fendas de uma grande pedra, descortinou o futuro. Em pouco tempo, colocaria Nostradamus no bolso. O preço foi altíssimo: diluiu-se na alma de todos. A coisa foi tão séria que esqueceu o próprio nome. Diante do espelho, as grifes não apareciam mais. Via somente um enorme bolo de carne e sangue, com cobertura de cabelo.

 A visão

 O que estava atrás da cortina? Nada. Nada que interessaria a alguém que toma banho diariamente e se alimenta três vezes ao dia. Que trabalha das 8 às 17 horas e sonha em casar, ter filhos e ganhar dinheiro. Aconteceu assim: “eu estava sentado contemplando uma barata de pernas pro ar e, sem mais nem menos, um flash interior deu início à minha visão. Fui arrebatado aos portais da Terra, isso lá no ano de 2100. Sobre a porta principal, uma placa gigante, em que aparecia a seguinte mensagem: KOLKJSKDJN, em todos os idiomas do universo. Depois de umas cinco horas, achei a tradução para a língua portuguesa – estava tudo em ordem alfabética, mas eu não tinha me ligado. Eis como ficou, então, em nossa língua: SANATÓRIO.”

“Agora entendi tudo”, pensou ele, enquanto caminhava em uma praia localizada a poucos quilômetros dali. O vento, contribuindo para o momento de iluminação, trouxe a conversa de alguém que parecia ser o dono do mundo: “faltam apenas três séculos para fecharmos esta espelunca, depois disso, missão cumprida.”

Todos que ultrapassam a barreira do tempo voltam com problemas. Com ele não seria diferente. Este foi o último pensamento dele, antes de pirar de vez: “toda a esperança se resume em ser curado, para receber uma nova carcaça, isto é, um corpo incorruptível.”

criado por Julio Scarparo    15:58 — Arquivado em: Sem categoria

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