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Contos e crônicas como passatempo

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Contos e crônicas como passatempo
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Terra Blog

03.08.08

A igreja que desapareceu do mapa

 

O pastor-presidente da igreja evangélica Reina Ontem, José Silvas, de 58 anos, fechará amanhã todas as 2 mil igrejas da denominação porque “Deus não fala mais com ele.” A decisão foi tomada anteontem após longa reunião entre os principais líderes da seita, que possui aproximadamente 200 mil fiéis.

Segundo o pastor, há anos ele encontra dificuldades de pregar o evangelho. “É um suplício, sinto-me oco, anacrônico, não tenho o que dizer, falo sempre a mesma coisa”, revelou Silvas, enquanto chorava nos ombros da esposa Catarina, que segurava o esboço do último sermão do marido. Os templos serão transformados em estabelecimentos comerciais até o fim do ano. “Em São Paulo, os moradores estão optando entre salão de beleza e padaria”, completou um dos assessores do religioso.

Perseverança é tudo

A idéia do fechamento ganhou força depois da morte do fundador da denominação, Matusalém Santo Paulo, em agosto de 2007. De acordo com os membros, os pastores da igreja não entendem do assunto, parecem autores de auto-ajuda ou psicólogos sem diploma. “Só sabem cobrar dízimo e fazer festinhas”, diz a crente Maria de Jesus Peixe da Lagoa, de 46 anos, que freqüenta a 1ª Igreja Reina Ontem de Santo André, na região do Grande ABC paulista.

O diretor-presidente da Associação Evangélica do Cosmos (AEC), Paulo Santo Neto, lamenta a decisão dos líderes da Reina Ontem. “Se olharmos para a história da igreja cristã, veremos que a perseverança é tudo”, declarou. O presidente-fundador da Assembléia dos Anjos, Gabriel Santo Neto, irmão do presidente da AEC, disse que está na hora de separar o joio do trigo. Para Gabriel, “quem não é de Deus deve tirar o time de campo.” Em solidariedade à igreja, evangélicos de vários grupos participarão da caminhada “Agora Reina Hoje”, que ocorrerá dia 1º de abril, sábado, às 14 horas, no Parque do Pato, onde tocarão as principais bandas do segmento.

 

27.07.08

Torre de Babel

 

Parte Um: A escada

Sem identificar-se, o jornalista entra no edifício. Está atrasado e o editor-chefe talvez tenha ido embora. Dentro do elevador, uma fraca luz ilumina a porta de madeira, que deve ser fechada manualmente. Luz, porta e vontade lhe fazem optar pela escada, afinal o terceiro andar é pertinho.

Desde criança ele gosta de subir escadas correndo. Aquele caminho pro alto lhe dá a sensação de ser livre, porque não precisa escolher entre esquerda e direita. Também gosta das escadas porque elas o deixam longe das pessoas, ao contrário do elevador, gaiola horrível. Cabos de aço e molas de segurança revelam a fragilidade humana em cada parada.

No segundo lance de escada, mergulhado na escuridão, o rapaz ouve vozes. Não são grunhidos de fantasmas, mas de gente. São duas pessoas conversando, velha e criança. Lembra que detesta ouvir essas duas pontas. Aliás, não gosta de nenhuma voz, nem da própria. Apenas respeita os que falam com olhos e coração.

Apartamento número 9 — indica o mapa feito num papel de pão. Discretamente, o editor-chefe abre a porta. Segundos depois, ele amassa a reportagem do jornalista e lança a bolinha pela janela. Agora só resta ir embora. Após acender um cigarro em frente do edifício, o jornalista teve de optar entre esquerda e direita. Voltar, nunca mais.


Parte Dois: A subida

Ainda em frente do edifício, lembra-se do “nunca mais apareça aqui!”, lançado pela boca da ex-namorada. Como ela mora ali perto, arrisca aparecer novamente. Segundo andar, apartamento 4. Arruma os óculos e bate na porta, a mesma que bateu na sua cara, há três anos.

— Oi, tudo bem? - diz ele.
— Tudo. Entra.
— Pelo que vejo, está de saída.
— Estou. Hoje tem culto na igreja. Vamos?
— Mas eu estou de camiseta...
— E Deus está interessado em moda? Ele acompanha o interior.
— Então eu topo, mas não solte a minha mão. OK?

O templo está forrado de gente. A única chance é a galeria. A escada da galeria é estreita e bastante iluminada. Uns descem sem dificuldades, outros lutam bravamente pelo direito de subir — é o caso dele, em desvantagem como sempre. Tão logo se ajusta na cadeira de plástico, percebe que o pastor não olha pra cima. Em compensação, os crentes do local o engolem com a beira dos olhos. Faz o mesmo.

Talvez por causa da profissão, percebe alguns erros de português lançados pela estranha boca do pastor. Estranha porque era meio oval, de lado. Combina com o dedo em riste, que aponta para um lugar não-identificado. De repente, a pregação começa a encontrar espaço em sua cabeça. A palavra-chave é “discórdia”.

O pregador fala sobre uma das maiores discussões que o mundo já tinha presenciado: a discórdia entre dois apóstolos. De um lado, Paulo — que era íntimo do Homem — do outro, Barnabé, discípulo de ponta. Eles eram tão usados por Deus que, durante a primeira viagem missionária, foram confundidos com os deuses Mercúrio e Júpiter. O motivo da discórdia era Marcos, que abandonara a missão e queria voltar. Segundo Paulo, esse negócio de abandonar o barco de Jesus não era legal. Por isso, o rapaz não retornaria à equipe. Mas Barnabé era flexível, queria porque queria levar o Marcos. O restante da história você encontra em Atos 15.36–41.


Parte Final: A descida

Depois da mensagem, ouve a música de vanguarda dos adolescentes, a benção apostólica e o amém. Agora ele desce a escada. E como ninguém luta para subir, a vantagem da descida perde a graça. Ainda com o pé esquerdo no último degrau, é apresentado ao pastor:

— Pastor, este é meu ex-namorado.

“Ex-namorado” é a senha para o repórter se lembrar dos três dias e dois seios em Ubatuba, verão de 1998.

— Tudo bem, jovem?
— Tudo... Olha... pra dizer a verdade, não está tudo bem. Os editores de hoje gostam de notícias banais. Um deles jogou meu texto pela janela porque não era banal. Pastor, se Deus está em todas as religiões Ele também é banal. Deus é uma bengala banal?

A provocação fora de hora faz a garota arregalar os olhos. Ele próprio se sente o homem mais idiota da face da Terra. Mas o pastor está acostumado a lidar com sujeitos em conflito. Respira fundo e responde:

— Garoto, você ouviu o meu sermão. Os discípulos continuaram o trabalho missionário porque conheciam o inefável amor de Deus. Uma coisa eu aprendi com um pensador chamado Francis Schaeffer, e por isso estou aqui. Ele dizia: “é ridículo afirmar que todas as religiões dizem a mesma coisa, quando, na verdade, discordam no ponto central, acerca de como Deus é .” Rapaz, estude seriamente a Bíblia e a compare com as religiões. Nenhuma prega tanto o amor como o cristianismo. A Bíblia diz que Deus é amor, não bengala. Expressar amor é uma coisa, ser bengala é outra completamente diferente. É difícil entender a diferença entre Pai e bengala?

20.07.08

O pai triste

 

Meus olhos vêem o que ele daria tudo pra ver. Perdeu o filho cedo. Não que o filho tenha morrido. Ele é que morreu. Do outro lado, todos tentavam convencê-lo, sem sucesso, a deixar a tristeza de lado, afinal de contas estava no céu e céu é lugar de alegria. Mas ele sofria porque se encontrava distante do filho.

O filho é meu melhor amigo. Sabe muito de mim, e eu dele. Sabe, por exemplo, que detesto pagode e que amo os Beatles. Sei que ele adora assistir aos programas da MTV e detesta Chico Buarque. “Cantor que é cantor tem de cantar, não ficar falando sobre justiça social ou o que quer que seja”, dizia sem nenhum receio de estar equivocado.

Embora não mereça tal privilégio, eu o vejo todos os dias. E o pai dele, não. Isso tem me feito um mal danado. Outro dia me senti impelido a adverti-lo porque sorria gostoso. Quase disse: “seu pai morreu não faz nem um mês, como pode estar rindo à toa?” Mas não disse nada porque também pensei: “o pai dele, esteja onde estiver, deve se alegrar em saber que seu filho está feliz.”

Existe outro lugar?

No entanto, o pai existia sem nenhuma notícia. “Em que ano será que eles estão? Morrer, ele não morreu, senão estaria aqui. Ou há outro lugar para estar?”, pensava o pai com os seus botões. Até os anjos, que brincavam de fazer roda, notaram a preocupação do pai. “Sei não, mas acho que o Pai tomará alguma providência, só não sei qual”, afirmou o de asas coloridas. “Pois é”, disse um anjinho, “mas levá-lo de volta à Terra isso Ele não fará, porque a própria Bíblia explica que é proibido aos mortos falar com os vivos.” “É verdade”, disse o mais brilhante, “mas será que não há uma brecha na Lei de Deus? Eu vi, no Monte da Transfiguração, Moisés e Elias junto de Jesus.” “É, tem isso, mas foi um caso à parte. Jesus estava prestes a ser crucificado, o que daria sentido a tudo.” Menos ao pai triste...

De repente, todos se calam. O céu inteiro silencia. O Todo-Poderoso levanta de seu trono. Caminha com passos de King Kong em direção ao pai triste. Quando o encontra, diz:

- Você sofre porque ainda pensa como ser humano. O tempo não existe mais. Além disso, ele não é seu e você não é dele. Todos somos um. Aqui, todos possuem o mesmo valor. Não existe alguém que seja mais importante do que o outro. Tá vendo aquele jovem lindo ali naquele canto? É o seu filho. Sempre esteve aqui.

13.07.08

A luva é de quem?

 

Nosso corpo é a luva de alguém. Ou é parte do mouse dum internauta, tanto faz. Seja o que for, o fato é que você e eu fazemos o trabalho duro, isto é, botamos a cara pra bater, tocamos na sujeira dos pratos e nos vírus de computador. Em pouco tempo, a luva rasga e o mouse fica obsoleto, o que significa vida curta.

Somente os que são capazes de notar a beleza da vida é que deveriam se manifestar via luva, via mouse. Dessa forma, o mal diminuiria de tamanho. No entanto, os monstros estão por toda parte, dispostos a ferir seus semelhantes. É difícil de acreditar, mas o detentor da luva direita se alegra quando a luva esquerda se rasga. E o botão do lado esquerdo do mouse fica feliz quando o do lado direito dá pau.

Então sugiro lançar todas as luvas e todos os mouses dentro dum imenso saco de lixo preto. Depois, jogar litros e mais litros de álcool ou gasolina. Será só riscar o fósforo mais próximo e jogá-lo no monte. “Mas vamos desperdiçar as boas luvas e os bons mouses?”, alguém perguntaria. Sim, vamos desperdiçar tudo porque uma andorinha só não faz verão.

Leonardo da Vinci

Não declaro a vitória definitiva do mal. Só vejo o que ocorre no âmago da questão. Os filhos de Satã, que são de carne e sangue, continuarão a invadir objetos pra encher o saco. Lamento que outras espécies também sofram com tudo isso. Os porcos mencionados na Bíblia, que se jogaram do precipício, não tinham nada a ver com os demônios, mas pagaram o pato. Pois é. Acho que a maneira como os animais são tratados é uma espécie de termômetro da índole humana. Cito de memória o que Leonardo da Vinci disse: “chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais. E nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade.”

Em São Paulo, aposto que esse dia demorará muito pra chegar, se chegar. Ontem mesmo eu conversava com um amigo, que contou o seguinte:

- Julio, o cara atropelou o cachorro e seguiu em frente. Os demais carros, que vinham atrás, só se preocupavam em não sujar os pneus. Eu fiquei desesperado. Encostei meu carro e desviei o trânsito pro coitado não ser esmagado de novo. O cão não gritava, apesar das fraturas expostas. Simplesmente o cachorro tentava, mas não conseguia se mover. Morreu na minha frente. Limparam o asfalto com uma pá. Tudo diante de meus olhos e de minha insignificância.

Luva, mouse e automóvel são usados por diversas personalidades. Com um clique dos espíritos de porco, a história se repete. Azar nosso porque todo o sistema operacional está em pane. Assim caminha a humanidade, conseguimos.

06.07.08

Três pedras na mão

 

Sócrates permaneceu imóvel por 24 horas, completamente perdido em seus pensamentos, garantem os estudiosos do filósofo grego (470 - 399 a.C.). Guardada as devidas proporções, eu também fiquei imóvel (uns 20 minutinhos, mas fiquei), e perdido em somente um pensamento: “tomara que a minha seja a escolhida, tomara que a minha seja a escolhida.” Era uma tarde de 1984. As três melhores redações seriam lidas na classe. O monte de folhas descansava nas mãos da irmã Petronila, a professora de língua portuguesa da 4ª série do então primário, duma escola de freiras da região do Grande ABC paulista.

Eu vinha dum bom desempenho: uma competição e uma vitória. É que dois anos antes, deixara todos os coleguinhas para trás, ao apresentar uma redação fora do comum. Enquanto todos escreveram sobre “como foram as minhas férias”, eu escrevi a respeito dum gigante formigueiro de vidro. Entre pipas, bolas, praia, papai e mamãe, a professora Elisabeth elegeu a minha descrição das formigas como a melhor de todas. Tudo bem que ganhei a fama de esquisito, que dura até hoje, mas foi uma vitória legal.

A irmã Petronila coloca todos papéis sobre a mesa. “Antes de passarmos para as redações, vamos cantar a música da semana.” Não, ela só pode estar de brincadeira. Como adiar a leitura do meu texto especial, escrito com caneta Pilot preta, com direito a verde no título? Ao contrário de mim, todos optaram pelas tradicionais azul e vermelho.

Atire a primeira

Ela é a autoridade máxima. Então, resignadamente, junto-me a todos no que, para mim, parece um comercial que serve apenas para prolongar a expectativa e aumentar o Ibope. Vou simular que canto. “Crianças, guardem esta letra, quando forem adultos terão saudades desse tempo:”

Atire a primeira pedra quem não tem pecado
Se o seu telhado for de vidro tome cuidadinho
Não jogue pedra no telhado de nenhum vizinho
Que é feito de vidro
Também seu telhado,
Que é feito de vidro
Também seu telhado
Assim, a vida é mais serena
Assim, a vida é mais amena
Quem erra é porque precisa de ser ajudado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum
Não atire pedra
Não atire
Não
*

Astronautas

Que droga, ela vai ler ou não? Sim, agora ela vai. “Uma redação que eu adorei foi a do Juvenal. “Ouçam: ‘Na feira. Fui comer pastel na feira com papai...’” (Deus do céu! Que lixo, o cara não sabe escrever?) “Outra que eu amei começa assim: ‘Dei um beijo na mamãe no aniversário dela.’” (Não é possível! Que coisa babaca!) “E agora, a última que eu vou ler é a da Bianca: ‘Ganhei no fim de semana uma boneca que fala...’” (Argh!) Lamentavelmente, a Petronila teve a coragem de não ler a minha redação intitulada “Eram os deuses astronautas?”

Pois tá narrado: a minha primeira e única vitória literária, que ocorreu na 2ª série do primário, com “O formigueiro”, e a maior derrota da minha vida, quando ninguém quis saber dos meus astronautas. No finzinho daquela aula, todos me viram atirar as três pedras que tinha na mão: uma na barraca do pastel, outra no bolo de aniversário e a última, bem no meio da testa da boneca que fala...