ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

28.2.09

De volta para o Blog

Bem que o apóstolo Paulo alertou. Se alguém quiser servir a Deus, melhor sem mulher. No meu caso, até que ela não atrapalha a fé cristã. O que pegou mesmo foi a questão literária: por causa da fêmea, deixei este Blog por seis longos meses. Agora aproveito para retornar enquanto ela dorme profundamente. A garota está convalescendo devagar, vítima de uma forte gripe. Como está agonizando num colchão, sinto-me à vontade para teclar. E o tema desta crônica entrou literalmente pela porta.

 

Na verdade, entramos quase ao mesmo tempo na cozinha, só que eu sentei-me à mesa. Já a mosca metálica preferiu se ajustar na colher suja da pia. “Esse mosca é mais lenta do que a doméstica, vou matá-la facilmente.” Enrolo um pano de prato e… Erro o alvo… A partir de então, o inseto pira. Voa em direção do meu rosto com fúria e alveja-me por três vezes. “Quem vê pensa que tem ferrão”, ironizo. Em seguida, começa a voar em círculos sem parar um segundo sequer. Tento acompanhá-la com os olhos, mas é em vão. Permaneço de pé somente ouvindo o som irritante da minha inimiga.

 

Minutos mais tarde, ela pousa sobre o fogão. Está perto de mim. Com as patas traseiras, limpa as asas, é uma visão nojenta. Além disso, olha-me de frente. “Parece que está mostrando a língua para mim… mas isso seria um absurdo, um inseto não poderia ser tão inteligente a esse ponto”, pensei. “Mas se assim for, trata-se de um desafio… Acho que estou imaginando coisas…” Pego novamente o pano de prato e tento esmagá-la. A mosca pula fácil e começa a voar de novo.

 

De bandeja

 

A maluquice total começa agora. Em vez de a mosca pousar na sujeira da pia, onde há copos com leite e pratos com resto de comida, ela escolhe o topo do encosto da cadeira, que está a um braço de distancia de mim. “Está de bandeja, é muita sorte. Acho que conseguirei pegá-la.” Mas ela não está distraída como eu pensava. Tão logo começo a enrolar o pano de prato, em câmera lenta, a mosca engatilha o voo. “Não é possível, ela está de olho nos meus movimentos!” Quase quebro a cadeira, mas erro o alvo.

 

Mal sabia eu que seria convidado a duelar por mais cinco vezes naquela mesma cadeira. Isso mesmo. A mosca pousou na cadeira, seguidamente, por outras cinco vezes. Confesso que senti vergonha de ser tão humilhado. A maldita mosca vencia um ser humano. “Agora é uma questão de honra.” Na última vez, ela grudou no pé da cadeira. Bem devagar, saio da cozinha para pegar um veneno específico para baratas, ou seja, teria o efeito duma bomba atômica para a mosca metálica. Quando retorno, não a encontro mais. “Agora ela deve estar se gabando por aí, dizendo que Golias fugiu dela…”

 

 

 

 

 

criado por Julio Scarparo    9:41 — Arquivado em: Sem categoria

3.8.08

A igreja que desapareceu do mapa

 

O pastor-presidente da igreja evangélica Reina Ontem, José Silvas, de 58 anos, fechará amanhã todas as 2 mil igrejas da denominação porque “Deus não fala mais com ele.” A decisão foi tomada anteontem após longa reunião entre os principais líderes da seita, que possui aproximadamente 200 mil fiéis.

Segundo o pastor, há anos ele encontra dificuldades de pregar o evangelho. “É um suplício, sinto-me oco, anacrônico, não tenho o que dizer, falo sempre a mesma coisa”, revelou Silvas, enquanto chorava nos ombros da esposa Catarina, que segurava o esboço do último sermão do marido. Os templos serão transformados em estabelecimentos comerciais até o fim do ano. “Em São Paulo, os moradores estão optando entre salão de beleza e padaria”, completou um dos assessores do religioso.

Perseverança é tudo

A idéia do fechamento ganhou força depois da morte do fundador da denominação, Matusalém Santo Paulo, em agosto de 2007. De acordo com os membros, os pastores da igreja não entendem do assunto, parecem autores de auto-ajuda ou psicólogos sem diploma. “Só sabem cobrar dízimo e fazer festinhas”, diz a crente Maria de Jesus Peixe da Lagoa, de 46 anos, que freqüenta a 1ª Igreja Reina Ontem de Santo André, na região do Grande ABC paulista.

O diretor-presidente da Associação Evangélica do Cosmos (AEC), Paulo Santo Neto, lamenta a decisão dos líderes da Reina Ontem. “Se olharmos para a história da igreja cristã, veremos que a perseverança é tudo”, declarou. O presidente-fundador da Assembléia dos Anjos, Gabriel Santo Neto, irmão do presidente da AEC, disse que está na hora de separar o joio do trigo. Para Gabriel, “quem não é de Deus deve tirar o time de campo.” Em solidariedade à igreja, evangélicos de vários grupos participarão da caminhada “Agora Reina Hoje”, que ocorrerá dia 1º de abril, sábado, às 14 horas, no Parque do Pato, onde tocarão as principais bandas do segmento.

 

criado por Julio Scarparo    23:54 — Arquivado em: Sem categoria

27.7.08

Torre de Babel

 

Parte Um: A escada

Sem identificar-se, o jornalista entra no edifício. Está atrasado e o editor-chefe talvez tenha ido embora. Dentro do elevador, uma fraca luz ilumina a porta de madeira, que deve ser fechada manualmente. Luz, porta e vontade lhe fazem optar pela escada, afinal o terceiro andar é pertinho.

Desde criança ele gosta de subir escadas correndo. Aquele caminho pro alto lhe dá a sensação de ser livre, porque não precisa escolher entre esquerda e direita. Também gosta das escadas porque elas o deixam longe das pessoas, ao contrário do elevador, gaiola horrível. Cabos de aço e molas de segurança revelam a fragilidade humana em cada parada.

No segundo lance de escada, mergulhado na escuridão, o rapaz ouve vozes. Não são grunhidos de fantasmas, mas de gente. São duas pessoas conversando, velha e criança. Lembra que detesta ouvir essas duas pontas. Aliás, não gosta de nenhuma voz, nem da própria. Apenas respeita os que falam com olhos e coração.

Apartamento número 9 — indica o mapa feito num papel de pão. Discretamente, o editor-chefe abre a porta. Segundos depois, ele amassa a reportagem do jornalista e lança a bolinha pela janela. Agora só resta ir embora. Após acender um cigarro em frente do edifício, o jornalista teve de optar entre esquerda e direita. Voltar, nunca mais.

Parte Dois: A subida

Ainda em frente do edifício, lembra-se do “nunca mais apareça aqui!”, lançado pela boca da ex-namorada. Como ela mora ali perto, arrisca aparecer novamente. Segundo andar, apartamento 4. Arruma os óculos e bate na porta, a mesma que bateu na sua cara, há três anos.

— Oi, tudo bem? - diz ele.
— Tudo. Entra.
— Pelo que vejo, está de saída.
— Estou. Hoje tem culto na igreja. Vamos?
— Mas eu estou de camiseta…
— E Deus está interessado em moda? Ele acompanha o interior.
— Então eu topo, mas não solte a minha mão. OK?

O templo está forrado de gente. A única chance é a galeria. A escada da galeria é estreita e bastante iluminada. Uns descem sem dificuldades, outros lutam bravamente pelo direito de subir — é o caso dele, em desvantagem como sempre. Tão logo se ajusta na cadeira de plástico, percebe que o pastor não olha pra cima. Em compensação, os crentes do local o engolem com a beira dos olhos. Faz o mesmo.

Talvez por causa da profissão, percebe alguns erros de português lançados pela estranha boca do pastor. Estranha porque era meio oval, de lado. Combina com o dedo em riste, que aponta para um lugar não-identificado. De repente, a pregação começa a encontrar espaço em sua cabeça. A palavra-chave é “discórdia”.

O pregador fala sobre uma das maiores discussões que o mundo já tinha presenciado: a discórdia entre dois apóstolos. De um lado, Paulo — que era íntimo do Homem — do outro, Barnabé, discípulo de ponta. Eles eram tão usados por Deus que, durante a primeira viagem missionária, foram confundidos com os deuses Mercúrio e Júpiter. O motivo da discórdia era Marcos, que abandonara a missão e queria voltar. Segundo Paulo, esse negócio de abandonar o barco de Jesus não era legal. Por isso, o rapaz não retornaria à equipe. Mas Barnabé era flexível, queria porque queria levar o Marcos. O restante da história você encontra em Atos 15.36–41.

Parte Final: A descida

Depois da mensagem, ouve a música de vanguarda dos adolescentes, a benção apostólica e o amém. Agora ele desce a escada. E como ninguém luta para subir, a vantagem da descida perde a graça. Ainda com o pé esquerdo no último degrau, é apresentado ao pastor:

— Pastor, este é meu ex-namorado.

“Ex-namorado” é a senha para o repórter se lembrar dos três dias e dois seios em Ubatuba, verão de 1998.

— Tudo bem, jovem?
— Tudo… Olha… pra dizer a verdade, não está tudo bem. Os editores de hoje gostam de notícias banais. Um deles jogou meu texto pela janela porque não era banal. Pastor, se Deus está em todas as religiões Ele também é banal. Deus é uma bengala banal?

A provocação fora de hora faz a garota arregalar os olhos. Ele próprio se sente o homem mais idiota da face da Terra. Mas o pastor está acostumado a lidar com sujeitos em conflito. Respira fundo e responde:

— Garoto, você ouviu o meu sermão. Os discípulos continuaram o trabalho missionário porque conheciam o inefável amor de Deus. Uma coisa eu aprendi com um pensador chamado Francis Schaeffer, e por isso estou aqui. Ele dizia: “é ridículo afirmar que todas as religiões dizem a mesma coisa, quando, na verdade, discordam no ponto central, acerca de como Deus é .” Rapaz, estude seriamente a Bíblia e a compare com as religiões. Nenhuma prega tanto o amor como o cristianismo. A Bíblia diz que Deus é amor, não bengala. Expressar amor é uma coisa, ser bengala é outra completamente diferente. É difícil entender a diferença entre Pai e bengala?

criado por Julio Scarparo    23:59 — Arquivado em: Sem categoria

20.7.08

O pai triste

 

Meus olhos vêem o que ele daria tudo pra ver. Perdeu o filho cedo. Não que o filho tenha morrido. Ele é que morreu. Do outro lado, todos tentavam convencê-lo, sem sucesso, a deixar a tristeza de lado, afinal de contas estava no céu e céu é lugar de alegria. Mas ele sofria porque se encontrava distante do filho.

O filho é meu melhor amigo. Sabe muito de mim, e eu dele. Sabe, por exemplo, que detesto pagode e que amo os Beatles. Sei que ele adora assistir aos programas da MTV e detesta Chico Buarque. “Cantor que é cantor tem de cantar, não ficar falando sobre justiça social ou o que quer que seja”, dizia sem nenhum receio de estar equivocado.

Embora não mereça tal privilégio, eu o vejo todos os dias. E o pai dele, não. Isso tem me feito um mal danado. Outro dia me senti impelido a adverti-lo porque sorria gostoso. Quase disse: “seu pai morreu não faz nem um mês, como pode estar rindo à toa?” Mas não disse nada porque também pensei: “o pai dele, esteja onde estiver, deve se alegrar em saber que seu filho está feliz.”

Existe outro lugar?

No entanto, o pai existia sem nenhuma notícia. “Em que ano será que eles estão? Morrer, ele não morreu, senão estaria aqui. Ou há outro lugar para estar?”, pensava o pai com os seus botões. Até os anjos, que brincavam de fazer roda, notaram a preocupação do pai. “Sei não, mas acho que o Pai tomará alguma providência, só não sei qual”, afirmou o de asas coloridas. “Pois é”, disse um anjinho, “mas levá-lo de volta à Terra isso Ele não fará, porque a própria Bíblia explica que é proibido aos mortos falar com os vivos.” “É verdade”, disse o mais brilhante, “mas será que não há uma brecha na Lei de Deus? Eu vi, no Monte da Transfiguração, Moisés e Elias junto de Jesus.” “É, tem isso, mas foi um caso à parte. Jesus estava prestes a ser crucificado, o que daria sentido a tudo.” Menos ao pai triste…

De repente, todos se calam. O céu inteiro silencia. O Todo-Poderoso levanta de seu trono. Caminha com passos de King Kong em direção ao pai triste. Quando o encontra, diz:

- Você sofre porque ainda pensa como ser humano. O tempo não existe mais. Além disso, ele não é seu e você não é dele. Todos somos um. Aqui, todos possuem o mesmo valor. Não existe alguém que seja mais importante do que o outro. Tá vendo aquele jovem lindo ali naquele canto? É o seu filho. Sempre esteve aqui.

criado por Julio Scarparo    23:34 — Arquivado em: Sem categoria

13.7.08

A luva é de quem?

 

Nosso corpo é a luva de alguém. Ou é parte do mouse dum internauta, tanto faz. Seja o que for, o fato é que você e eu fazemos o trabalho duro, isto é, botamos a cara pra bater, tocamos na sujeira dos pratos e nos vírus de computador. Em pouco tempo, a luva rasga e o mouse fica obsoleto, o que significa vida curta.

Somente os que são capazes de notar a beleza da vida é que deveriam se manifestar via luva, via mouse. Dessa forma, o mal diminuiria de tamanho. No entanto, os monstros estão por toda parte, dispostos a ferir seus semelhantes. É difícil de acreditar, mas o detentor da luva direita se alegra quando a luva esquerda se rasga. E o botão do lado esquerdo do mouse fica feliz quando o do lado direito dá pau.

Então sugiro lançar todas as luvas e todos os mouses dentro dum imenso saco de lixo preto. Depois, jogar litros e mais litros de álcool ou gasolina. Será só riscar o fósforo mais próximo e jogá-lo no monte. “Mas vamos desperdiçar as boas luvas e os bons mouses?”, alguém perguntaria. Sim, vamos desperdiçar tudo porque uma andorinha só não faz verão.

Leonardo da Vinci

Não declaro a vitória definitiva do mal. Só vejo o que ocorre no âmago da questão. Os filhos de Satã, que são de carne e sangue, continuarão a invadir objetos pra encher o saco. Lamento que outras espécies também sofram com tudo isso. Os porcos mencionados na Bíblia, que se jogaram do precipício, não tinham nada a ver com os demônios, mas pagaram o pato. Pois é. Acho que a maneira como os animais são tratados é uma espécie de termômetro da índole humana. Cito de memória o que Leonardo da Vinci disse: “chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais. E nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade.”

Em São Paulo, aposto que esse dia demorará muito pra chegar, se chegar. Ontem mesmo eu conversava com um amigo, que contou o seguinte:

- Julio, o cara atropelou o cachorro e seguiu em frente. Os demais carros, que vinham atrás, só se preocupavam em não sujar os pneus. Eu fiquei desesperado. Encostei meu carro e desviei o trânsito pro coitado não ser esmagado de novo. O cão não gritava, apesar das fraturas expostas. Simplesmente o cachorro tentava, mas não conseguia se mover. Morreu na minha frente. Limparam o asfalto com uma pá. Tudo diante de meus olhos e de minha insignificância.

Luva, mouse e automóvel são usados por diversas personalidades. Com um clique dos espíritos de porco, a história se repete. Azar nosso porque todo o sistema operacional está em pane. Assim caminha a humanidade, conseguimos.

criado por Julio Scarparo    19:26 — Arquivado em: Sem categoria

6.7.08

Três pedras na mão

 

Sócrates permaneceu imóvel por 24 horas, completamente perdido em seus pensamentos, garantem os estudiosos do filósofo grego (470 - 399 a.C.). Guardada as devidas proporções, eu também fiquei imóvel (uns 20 minutinhos, mas fiquei), e perdido em somente um pensamento: “tomara que a minha seja a escolhida, tomara que a minha seja a escolhida.” Era uma tarde de 1984. As três melhores redações seriam lidas na classe. O monte de folhas descansava nas mãos da irmã Petronila, a professora de língua portuguesa da 4ª série do então primário, duma escola de freiras da região do Grande ABC paulista.

Eu vinha dum bom desempenho: uma competição e uma vitória. É que dois anos antes, deixara todos os coleguinhas para trás, ao apresentar uma redação fora do comum. Enquanto todos escreveram sobre “como foram as minhas férias”, eu escrevi a respeito dum gigante formigueiro de vidro. Entre pipas, bolas, praia, papai e mamãe, a professora Elisabeth elegeu a minha descrição das formigas como a melhor de todas. Tudo bem que ganhei a fama de esquisito, que dura até hoje, mas foi uma vitória legal.

A irmã Petronila coloca todos papéis sobre a mesa. “Antes de passarmos para as redações, vamos cantar a música da semana.” Não, ela só pode estar de brincadeira. Como adiar a leitura do meu texto especial, escrito com caneta Pilot preta, com direito a verde no título? Ao contrário de mim, todos optaram pelas tradicionais azul e vermelho.

Atire a primeira

Ela é a autoridade máxima. Então, resignadamente, junto-me a todos no que, para mim, parece um comercial que serve apenas para prolongar a expectativa e aumentar o Ibope. Vou simular que canto. “Crianças, guardem esta letra, quando forem adultos terão saudades desse tempo:”

Atire a primeira pedra quem não tem pecado
Se o seu telhado for de vidro tome cuidadinho
Não jogue pedra no telhado de nenhum vizinho
Que é feito de vidro
Também seu telhado,
Que é feito de vidro
Também seu telhado
Assim, a vida é mais serena
Assim, a vida é mais amena
Quem erra é porque precisa de ser ajudado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum
Não atire pedra
Não atire
Não
*

Astronautas

Que droga, ela vai ler ou não? Sim, agora ela vai. “Uma redação que eu adorei foi a do Juvenal. “Ouçam: ‘Na feira. Fui comer pastel na feira com papai…’” (Deus do céu! Que lixo, o cara não sabe escrever?) “Outra que eu amei começa assim: ‘Dei um beijo na mamãe no aniversário dela.’” (Não é possível! Que coisa babaca!) “E agora, a última que eu vou ler é a da Bianca: ‘Ganhei no fim de semana uma boneca que fala…’” (Argh!) Lamentavelmente, a Petronila teve a coragem de não ler a minha redação intitulada “Eram os deuses astronautas?”

Pois tá narrado: a minha primeira e única vitória literária, que ocorreu na 2ª série do primário, com “O formigueiro”, e a maior derrota da minha vida, quando ninguém quis saber dos meus astronautas. No finzinho daquela aula, todos me viram atirar as três pedras que tinha na mão: uma na barraca do pastel, outra no bolo de aniversário e a última, bem no meio da testa da boneca que fala…

criado por Julio Scarparo    19:58 — Arquivado em: Sem categoria

29.6.08

Sentimento fora do dicionário

 

Viro a esquina e uma mulher estranha se aproxima de mim para entregar-me um papel que está em sua mão. A folha parece que acabou de ser arrancada dum caderno pequeno. “O senhor é o Julio?” Sim, sim, mas e daí? Assim me chamam há 34 anos. “Sou eu. Qual o problema?” “Pediram pra eu lhe entregar este recado. Toma e lê.” Na hora, lembrei-me da conversão do pervertido filósofo Agostinho de Hipona, lá pelas bandas do quarto século. Ele estava num jardim quando ouviu a voz duma criança dizer: “toma e lê.” O texto era Romanos 13.13 e 14: “Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências.”

“Será que também acabo de receber uma mensagem do céu?”, penso eu. Observo atentamente o material. A caligrafia é de mulher, a cor da caneta é preta e o texto deve dar mais ou menos uns 700 caracteres, se digitado em Word (sei disso porque sou jornalista, he, he):

Querido Julio, ninguém me conhece, nem poderá conhecer-me depois. De onde estou, sei que você já morreu faz um tempão. Mesmo assim, não há nenhum problema nisso, pelo menos para mim, que viva estou. É que hoje recebi o seguinte ensinamento: ‘como não existe passado ou futuro, ore pelos que já morreram, afinal tudo é hoje - agora - um mesmo instante.’ Por isso, peço a Deus que você, meu querido ancestral, saia do Brasil. Nele, há muita violência e a maioria esmagadora dos políticos é corrupta. Que o Soberano o proteja e guarde sempre. Mudando de assunto: a minha falecida mamãe contava que você era escritor. Deus, não permita que ele abandone esse dom. Que você supere os obstáculos e ganhe notoriedade.

Grande abraço!
Vitória

Ex-colega de trabalho

A carta é completamente maluca. Ora a remetente se dirige a mim, ora se dirige a Deus. Mas tem algo que me deixa com a pulga atrás da orelha. “Como alguém pode saber que tento ser escritor? Nunca mostrei nada do que escrevi pra ninguém. Sou capaz de apostar que meus familiares mal sabem que escrevo crônicas num blog de meia-tigela…”

Todos só sabem o que querem saber. E eu quero saber de almoçar. Desvio-me das pessoas que correm pela estreita calçada e entro no modesto restaurante. Escolho de propósito o lugar mais afastado. Vou reler a carta com calma. “Ou iria reler:”

- Olá, Julio, tudo bom com você?

- Tudo.

- Dando uma passada pela antiga região de trabalho?

- A nostalgia me faz bem. Ela ajuda a enfrentar o futuro com mais dignidade e força.

- Nossa… Que pensamento profundo… Posso ter a honra da sua companhia?

- Por favor, sente-se.

- Como vão as coisas?

- Olha, recebi agorinha mesmo este recado duma maluca. Quer ler?

A bonita morena de cabelo encaracolado lê com atenção a carta enigmática. Ela morde metade dos grossos lábios inferiores, olha para mim com cara de espanto e depois diz:

- Eu acredito nessa tal de Vitória. Acho que ela deve ser uma fã sua.

- Mas eu não tenho fãs por um motivo óbvio: não sei fazer nada digno de nota.

- Corta essa! Até eu tenho um montão de fãs. Sempre influenciamos uma porção de gente, quer queiramos ou não. Vai ver que é apenas uma religiosa desmiolada que admira você.

- Sabia que sou seu fã? Hoje, o Acaso me deu você de bandeja. Não posso ser mal-educado com ele, tenho que desfrutá-la a tarde inteira.

- Então não serei mal-educada também… No mesmo lugar?

- No mesmo lugar.

Popó

Na manhã seguinte saio para trabalhar. Caminho tranqüilamente pela rua deserta que leva ao ponto de ônibus. No outro lado, dois caras surgem do nada, ambos de cabeça baixa. De repente, um deles atravessa a rua e vem em minha direção feito míssil teleguiado ou abelha brava. Em questão de segundos haverá o impacto dos dois corpos. A uma distância de três metros, ele começa a me encarar, ao mesmo tempo em que ginga com as mãos debaixo da camiseta, insinuando que está armado. Olho de relance no parceiro: ele continua de cabeça baixa no outro lado da rua. O rapaz que lutará comigo é de estatura mediana, cabelos tingidos de amarelo e é idêntico ao ex-pugilista Acelino “Popó” Freitas, só que os olhos são claros, acho que azuis.

O rapaz passa por mim como se eu, de súbito, tivesse me tornado invisível. Não olho para trás. Apenas me lembro das palavras da Vitória, que nascerá daqui a algumas décadas: Que o Soberano o proteja e guarde sempre. Pela primeira vez na vida sinto “saudades do futuro” - um sentimento ainda não-rotulado nos dicionário do mundo.

criado por Julio Scarparo    13:16 — Arquivado em: Sem categoria

22.6.08

Tudo sob controle

 

É a segunda metade dos anos de 1980. A festa animada ocorre num prédio sem graça - talvez durante o dia seu aspecto melhore. No momento, colocamos os pés nas 23 horas. As tribos estão bem representadas pelos rapazes que trazem a erva nos bolsos. Em parte, eles são os responsáveis pelo sucesso do encontro. Ao som da banda norueguesa A-ha, que toca We are the one, cada um dá uma baforada no cigarro, até um cabaço acabar com a brincadeira, jogando num ralo dois centímetros da descontração: “o que você fez sua besta! Tinha muito pra queimar ainda! Isso aí não é Hollywood, cara!”

O som continua. A meu pedido, colocam Summer ‘68, do Pink Floyd, que é bem mais adequado ao cachimbo da paz. Como o povo reclama, a agulha da vitrola volta ao pop, trilhando New Order, com a vibrante Blue Monday. O pessoal dança engraçado: cola os joelhos pra depois balançá-los dum lado pro outro, enquanto a mão imita um cisne. Acho que o camarada oxigenado que usa brinco em uma das orelhas é bicha. Mais tarde saberia que era: em meio a putas que descansam na escada, o babaca faz sexo oral em um nordestino iletrado. Da escuridão dos degraus, é possível ouvir Voyage, Voyage, da Desireless.

Depois de passar pela torcida do Corinthians, a chave do apartamento finalmente chega até mim. A garota de cabelo vermelho gosta da idéia de sumirmos da multidão por alguns minutos, “porque tanto barulho já me deu dor de cabeça”, diz com toda a sinceridade do mundo. Mas antes de subir ela quer ouvir a Cyndi Lauper. “Feio, toca True Colors da Cyndi Lauper pra moça, pelo amor de Deus!” A música acaba, mas a noite está apenas começando. Giro a chave e abro a porta. Uma cortina de pedrinhas, ou de sei lá o que, marca a divisão da sala pro quarto. Fomos direto pra cama de casal. “Dá pra ligar o rádio?”, pergunta ela. “Só tem essa porcaria de rádio-relógio, vamos ver se funciona”, respondo. A primeira música que vem da FM é Luka, da Suzanne Vega. E por mais incrível que pareça, a segunda é Here, There and Everywhere, dos Beatles, minha banda predileta. A terceira, a quarta, a quinta, a sexta, assim como todas as demais, eu não me lembro.

Tentação

“A melhor maneira de vencer a tentação é cair nela”, foi o que, mais ou menos, escreveu o Oscar Wilde. Na prática, é a filosofia dos jovens reunidos aqui. Agora, o fundo musical é Build, do Housemartins. É tranqüilo o suficiente pra picharmos o nome de nossos chefes – e no meu caso específico, tenho toda a redação de um jornal pra maldizer, pois sou um “contínuo de redação”, personagem imortalizado pelo Nelson Rodrigues.

Na volta pra casa, em direção à estação de trem, paramos numa praça pra ver a lua cheia com mais atenção. “Ela é tão bonita, impossível Deus não existir”, afirma a moça de cabelos vermelhos. Eu também tenho a mesma impressão:

- Tudo está sob o controle Dele. A gente pode brincar de fazer dinheiro, de tapear os outros, de matar, de fornicar e o diabo, mas tudo está sob controle Dele…

criado por Julio Scarparo    21:59 — Arquivado em: Sem categoria

15.6.08

Lilith

 

Todas as noites, quando eu volto da faculdade, vejo um morador do bairro jogar um copo d’água no meio da rua. Quando não é ele, é a esposa. “Seria uma espécie de ritual ou apenas o resultado de uma simples goteira?” De qualquer forma, mexeu com a minha curiosidade. Um dia apertei o passo e perguntei:

- Boa noite! Desculpe perguntar, mas por que vocês jogam água na rua todas as noites?

A moça me olha com espanto e engole a saliva. Depois pisca forte, enxuga as mãos na apertada bermuda e diz:

- Não é dá sua conta!

Evidentemente, após a resposta, saio como quem diz: “OK, não está mais aqui quem falou…” Na noite seguinte é a vez de o homem jogar a bendita água. O avisto de longe. Corro e dou o bote:

- Amigo, boa noite! Posso perguntar por que você joga água aqui todos os dias?

- Você acredita em criaturas sobrenaturais?

- Sim.

- Pois bem. Para não nos atormentar com pesadelos, uma dessas criaturas exigiu água. A “chantagem” [ele faz aspas com os dedos] foi feita no início do ano à minha esposa, de madrugada: “enquanto jogares água em frente desta casa, vocês não terão sonhos maus.”

- E vocês acham mesmo que alguém bebe essa água?

- Com certeza a entidade bebe… Ei, eu sei quem você é. É o filho da costureira. Mora no fim da rua, não é?

- Isso mesmo.

- Se quiser entrar, explico mais sobre o fantasma.

Casa velha

A casa não é feia nem bonita. Olhando bem, parece que todos os móveis foram comprados nos anos de 1970. Para mim, um quadro está de ponta-cabeça. Também não sei como vivem sem um livro sequer. No mais, tudo é muito limpo e silencioso. A dona da casa, agora gentil comigo, conta os fatos:

- Aqui desta janela eu a vejo lamber a água que jogamos na rua.

- Como é que é?

- Ela passa por aqui sempre à meia-noite.

- Mas afinal de contas, quem é ela?

- Acho que é um espírito que resolveu morar em casa. E o pior é que ninguém acredita na gente, e quem acredita não sabe como nos ajudar – afirma o marido.

- São onze e meia. Quer esperar pra vê-la? – pergunta a esposa.

- Quero.

O corvo

É chegada a hora. Meia-noite em ponto. Apagamos todas as luzes e espiamos pela janela. Meu Deus do céu! Quem se aproxima da água não pertence à raça humana. A mulher nua que lambe o chão tem pés e asas de coruja. Usa uma coroa estranhíssima, parece feita de vime, tipo cesta de piquenique. Seus cabelos são pretos como as penas de um corvo e a sua pele é cinza. Não sei o que segura em cada uma das mãos, acho que são grandes argolas. Quando se ergue, ela olha em nossa direção. Apresenta o sorriso mais macabro que vi em toda a minha vida. É difícil descrevê-lo, mas vou tentar: num primeiro momento as pontas dos lábios negros sobem ligeiramente, de forma bem discreta. Terrível! Em seguida, ela abre apenas a metade da boca, como quem segura um riso… Tenho medo. Aos poucos, devagar, ela some do nosso campo de visão. Sou o primeiro a falar:

- Como estudei teologia, trombei com vários deuses e demônios. Posso apostar que aquele bicho lá fora se chama Lilith, um demônio feminino que apavorou muitos hebreus no passado. Ela tem o poder de invadir os sonhos das pessoas. É dessa maneira, por exemplo, que ela age para colher as ejaculações noturnas dos homens, os tornando impotentes. Tinham tanto medo dela que recomendavam jogar cinzas ao redor da cama pra ver as pegadas deixadas por esse espírito maligno.

- E como a gente se livra dela?

- Eu não sei.

criado por Julio Scarparo    20:08 — Arquivado em: Sem categoria

8.6.08

Maçã do Amor

 

“Por que tem de terminar assim?”, pergunto. Ela responde: “porque o amor acabou, simples.” Como a casa é dela, pego a mochila e saio andando. O problema é que não conheço nada em Oxford, nem em Londres. Pra dizer a verdade, embora ame a Inglaterra por causa dos Beatles, estou completamente perdido. Mas em vez de me preocupar com um teto ou com a próxima refeição, lembro-me destas palavras do cronista Paulo Mendes Campos: “o amor acaba.” E não é que ele acertou em cheio no meu caso? Infelizmente não soubemos alimentar o relacionamento.

Sem nada mais importante pra fazer, começo a andar. Durante o trajeto para o lugar-nenhum, fantasmas visitam a mente. Para ser mais exato, são vozes que vêm do passado: “você sabe que sempre estarei do seu lado, não sabe?”; sim, eu sei, porém tudo era perfeito demais…; “estou muito doente, mas mesmo assim atravessei o mundo para vê-lo”; boa lembrança, difícil esquecer; “como a data é especial, passei o batom de cor laranja”, legal, combina com a sua pele e cabelo.

C. S. Lewis

De repente, todas as vozes se calam quando me vejo diante do bar The Eagle end the Child. Era nesse pub que, no século passado, C. S. Lewis conversava a respeito de literatura com seus amigos, tipo J. R. R. Tolkien. Sento-me no lugar predileto deles. “Então este é o relógio de parede que era ignorado pelos nobres freqüentadores?” Fizeram bem. Afinal, o tempo passa depressa, mas e daí? Quem se importa? Somos o que somos, apesar da finitude.

Depois da farra dos fantasmas, a mulher de olhos verde-claros volta a invadir a minha cabeça. Buscando respostas, repito para mim mesmo um trecho duma obra de Lewis que decorei de tanto lê-la em três idiomas:

“Uns provavelmente irão sentir, a princípio, um mero apetite sexual por uma mulher e depois passam, num estágio posterior, a ‘sentir amor por ela.’ Mas duvido que isso seja comum. No geral, o que acontece primeiro é simplesmente uma deliciosa preocupação com o ser amado – uma preocupação geral, não-específica, com a mulher total. O homem nessas condições, na verdade, não tem tempo para pensar em sexo, pois está muito ocupado pensando numa pessoa. O fato de ela ser uma mulher é muito menos importante do que ser ela mesma. Ele está cheio de desejo, embora este não tenha uma tonalidade sexual. Se lhe perguntasse o que quer, sua resposta sincera geralmente seria: ‘continuar pensando nela.’ É o amor contemplativo. E quando mais tarde desperta o desejo explicitamente sexual, não irá sentir (a não ser que teorias científicas estejam a influenciá-lo) que desde o princípio fora essa a razão de tudo.”

Jane Birkin no auge

Continuo sem entender o fim do romance. Mas de tudo o que aprendi, uma coisa é certa: os olhares são perigosíssimos. São como as lanças que capturam as baleias dos mares, como disse não sei qual escritor. E o pior é que, se a mulher for parecida com a atriz Jane Birkin, por exemplo, basta uma espiada para a perdição total. (E por falar em Jane Birkin, a revista Joyce Pascowitch traz, na edição desta semana, um ensaio baseado nessa atriz dos anos de 1960.) Bom, falei tudo isso pra dizer que a roda-gigante não pára nunca. Cabe a nós esticarmos o braço para colher a maçã do amor.

 

criado por Julio Scarparo    21:46 — Arquivado em: Sem categoria

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